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07/02/10

O amor fechou a loja

Agarrou num saco preto e guardou lá dentro todos os corações fofinhos, o romântismo exacerbado e os frenicoques maricas.
Foi-se simplesmente embora de um dia para o outro, sem sequer me dar oportunidade de o fazer mudar de ideias.
Não me informou para onde ia, não me disse o porquê, deixou apenas uma carta à minha porta que dizia: Fui-me embora porque tu não acreditas em mim, mas prometo que um dia volto, no mesmo dia que finalmente deixares de ser parva, aceitares que o amor é uma inevitabilidade da vida e me receberes de braços abertos.
Eu acho que ele não volta tão cedo, foi passear para perto de alguém mais receptivo.

26/07/09

Eugénio de Andrade - Adeus


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tinhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar
Ás vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo
E já te disse: as palavras estão gastas
Adeus